sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Entrevista com o criador de Proibido Elefantes


O núcleo de comunicação do Ponto de Cultura Giratório está iniciando uma série de entrevista com grandes personalidades da cultura potiguar, e para iniciar essa série, entrevistamos o criador de "Proibido Elefantes" o mais novo espetáculo da Cia Gira Dança que estréia nos dias 10 e 11 de Outubro no TAM. Clébio Oliveira, potiguar que agora mora em Berlim, na Alemanha, onde recentemente recebeu o prestigiado prêmio Höffnungträger, "Coreógrafo revelação", concedido pela mais conceituada revista em dança da Europa a Tanz Magazine, também dançou durante quatro anos para a companhia de Dança Deborah Colker e três anos para a companhia de dança Toula Limnaios, em Berlin. Com essas companhias participou dos mais importantes festivais e tournées na Europa, Asia e América do Sul.
Como coreógrafo, criou peças para a Hubbard Street Dance Company 2, em USA, Ballet da Cidade de Niterói, Ballet do Teatro da Cidade de Kiel, Alemanha, Cia de Dança Carlota Portella, De Anima Ballet Contemporâneo, Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, Grupo de Dança Contemporânea da Escola Bolshoi do Brasil, e sua ultima criação é o mais novo espetáculo da Cia Gira Dança, denominado de Proibido Elefantes, além, de trabalhos solos.




Entrevista com Clébio Oliveira

Você sempre dançou e coreografou para companhias de dança que tem bailarinos considerados de corpos perfeitos. Qual a sua reação quando você recebeu o convite para coreografar para a Cia Gira Dança? E como esta sendo essa experiência?
A ideia que tenho de um corpo perfeito, talvez seja um pouco diferente  do que pensam a maioria das pessoas. Nao existe um corpo perfeito.  Eu acredito na singularidade, na personalidade, na identidade e na diferença que se faz necessária. Trabalhar numa Cia formada por corpos heterogêneos, me fascina e, ao mesmo tempo me desafia. A possibilidade  de voltar o olhar por caminhos nunca antes percorrido pode, a priori, assustar,  como também  estimular.  No meu caso, prevaleceu a segunda opção.

Tem algo que mudou na sua cabeça para criação do espetáculo depois que você conheceu melhor os bailarinos? 
Não. Na minha cabeça nada mudou. Eu acredito que o processo não foi fácil para alguns bailarinos. Houve uma certa resistência no início do processo criativo, provavelmente por se tratar de algo que foge dos padrões convencionais, o que é perfeitamente compreensível, afinal, na maioria das vezes isso pode  incomodar/ assustar. Entretanto, eu já conhecia alguns bailarinos e sabia do potencial da maioria, isso ajudou no processo de desenvolvimento da obra. Cada cena foi meticulosamente pensada para cada corpo e posteriormente experimentada e criada em parceria com os próprios bailarinos.

Você poderia falar um pouco qual a proposta desse espetáculo e como está sendo o processo de criação?
O trabalho se chama Proibido Elefantes. É um trabalho voltado para a questão do olhar. A minha colaboradora Daniela Fusaro explica: "Esse trabalho fala da possibilidade de produzir realidade a partir de nosso modo de ver / interpretar a realidade, que está em jogo. A potencialização do sujeito diante do mundo a partir de como ele o vê. O olhar do sujeito é produzido / afetado pela realidade do mesmo modo que produz e afeta a mesma. O olhar - que não se refere, aqui, ao sentido da visão que nos permite ver o mundo literalmente, mas à apreensão interna que temos deste - o olhar enquanto apreensão subjetiva do mundo, a leitura que fazemos dele, é, neste trabalho, um elemento potencializador do sujeito diante do mundo.
Proibir elefantes é proibir o livre trânsito do animal que é usado como meio de transporte na India. Proibir elefantes, nesse espetáculo, é proibir o olhar que ressalta a impossibilidade, que foca na impotência, que duvida da capacidade do sujeito frente à adversidade. Proibir elefantes, aqui, é apostar no olhar que o sujeito tem sobre si e sobre o mundo em que vive, como elemento instaurador de realidade / como meio de instaurar realidade."


Você já está muito tempo morando fora de Natal e à alguns anos morando na Alemanha. Hoje como você ver o cenário da dança em Natal em relação a sua época e em relação aos grandes centros de dança no Brasil? 
Parece que a dança em Natal anda sempre em círculos... E não é por falta de talentos, mas por uma combinação de fatores negativos, sejam eles, políticos, administrativos, falta de planejamento e etc. Conheço alguns artistas que, literalmente ,lutam para manter a cena cultural viva na cidade do Natal. Mas pergunto: Como uma cidade pode pensar em cultura ou em dança se serviços básicos como saúde, pavimentação, coleta de lixo são deixados de lado? Aqui em Natal, infelizmente, não há parâmetros para dança. A grande maioria não sabe o que é dança. Elas só estão interessadas em ir ao teatro para ver Cias que vêm de fora, muitas vezes apresentando algo cafona, ultrapassado, só porque o tal teatro está localizado em um shopping, enquanto na verdade deveriam voltar o olhar para algumas pérolas da cidade...

Você acaba de receber  um prêmio de reconhecimento  da Tanz Magazine,  uma das revistas mais conceituadas em dança da Alemanha e da Europa, como coreógrafo mais promissor de 2012. Como você avalia essa conquista e o que esse prêmio representa para sua carreira?
É verdade, a TanzMagazine é a maior revista voltada para a dança na Europa. Ter uma matéria mencionando o seu nome, já seria algo fantástico, receber um prêmio, então,  é algo inimaginável , principalmente para um nordestino que aportou em Berlin sem nenhuma perspectiva, sem falar inglês ou alemão, apenas com uma vontade imensa de fazer o que ama e ser respeitado como artista. Eu espero que esse prêmio possa trazer uma maior visibilidade para a minha carreira.